Trabalhadores com diploma conseguem emprego, mas em vagas sem qualificação

Publicado em: 16/09/2018 | 18:00


Mesmo durante a recessão, entre 2014 e 2017, mais 2,2 milhões de pessoas que têm ensino superior completo ingressaram no mercado de trabalho. No entanto, a maior parte delas, 1,3 milhão, só conseguiu uma vaga em funções que, no máximo, exigiam conhecimento técnico ou de nível médio. A renda média desse grupo também foi a que mais encolheu no período: quase 10%.
Para especialistas, os números, que fazem parte de um levantamento do Dieese, mostram dois aspectos cruéis da crise. Primeiro, profissionais sem alternativa de emprego acabam empreendendo ou aceitando trabalhos que não exigem maior especialização. Segundo, na outra ponta, a parcela mais vulnerável, de trabalhadores com menor qualificação, é expulsa do mercado.
 
- É assustador ver um país que investiu na formação de profissionais mais qualificados desperdiçar essa mão de obra e a chance de aumentar a produtividade. Deveríamos estar colhendo esses frutos, mas o que vemos é uma desestruturação intensa e rápida do mercado de trabalho - diz Patrícia Pelatieri, coordenadora de pesquisa do Dieese.
 
Paulo Sardinha, presidente da Associação Brasileira de Recursos Humanos no Rio de Janeiro (ABRH-RJ), reconhece que, em períodos de crise, há empresários que aproveitam a grande oferta de mão de obra qualificada para contratar esses profissionais em funções e salários inferiores. Mas considera a política “nada inteligente”, já que, dificilmente, o profissional se acomodará nesse emprego.
- O desemprego prolongado que vivemos faz, em primeiro lugar, a pessoa aceitar trabalhar longe de casa. Se não tiver sucesso, passa a aceitar qualquer vaga, por um salário muito inferior ao que recebia. Do outro lado, quem não teve condições ou oportunidades de evoluir na escolarização permanece desempregado - observa Sardinha.
 
OPÇÃO É SE REINVENTAR
 
Há, no entanto, quem aproveite o limão para fazer uma limonada. É o caso de Patricia Braga, de 52 anos. Pós-graduada, trabalhou por 30 anos em multinacionais, onde chegou a ocupar cargo de gerência. Desde a demissão, no início de 2016, não conseguiu mais se recolocar. Hoje, em parceria com a amiga Márcia Amaro, de 55, cuja trajetória profissional é semelhante, vende doces e artesanatos a bordo de uma bicicleta pelas ruas de Botafogo, na Zona Sul do Rio.
 
- Às vezes sinto falta do glamour. Passei 30 anos pegando avião e fazendo reuniões fora, mas a qualidade de vida que eu tenho agora é impagável. Quando você vira a chave e começa a perceber que existe um mundo além das quatro paredes de uma multinacional, é impagável. Sou muito feliz - conta Patrícia, que hoje fatura um terço do salário anterior.
 
A bióloga Cristian Nair de Souza, de 44, chegou a ser consultora de alimentos em duas grandes indústrias alimentícias do Rio e dava aulas em cursos preparatórios. Desde que ficou desempregada, em 2016, já trabalhou como motorista de aplicativo de transporte e taxista. Conta que a crise lhe deu uma grande lição:
- Não existe trabalho que não seja digno e salário que não valha a pena. Logo que fiquei desempregada, recusei muitas propostas, porque me pagariam pouco, até que cheguei a ter apenas os R$ 700 da pensão do meu filho mais novo (Cristian é divorciada) para sustentar a casa.
 
Hoje, comemora o novo emprego, com carteira assinada, ainda que fora de sua área. É vendedora de uma indústria de alimentos.
 
VENDEDORES E MOTORISTAS
 
Segundo a pesquisa, entre os vendedores de porta em porta, o número de pessoas com ensino superior saltou 187% entre 2014 e 2017, de 49,2 mil para 141,2 mil pessoas. O de motoristas de táxis e aplicativos graduados cresceu 125%, para mais de 105 mil, assim como o de trabalhadores de limpeza, que teve alta de 117%, passando para 65,4 mil pessoas com graduação nessa função.
 
 
 

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