| Leandro Colon, Tiago Pariz e Alessandra Pereira |
| Correio Braziliense |
Pedetista negocia aliança com a chapa de Marta Suplicy na disputa pela Prefeitura de São Paulo. Em troca, espera manter o mandato com ajuda da legenda. Candidatura de Aldo, do bloquinho, corre perigo
A política do toma-lá-dá-cá entrou na rota Brasília—São Paulo. Um dia depois de disparar contra DEM e PSDB, o deputado Paulo Pereira da Silva (PDT-SP) acelerou uma negociação para que o chamado bloquinho — PDT, PSB e PCdoB — indique o vice na chapa de Marta Suplicy (PT) à prefeitura paulistana.
Em troca, espera que o PT o apóie no processo que sofre na Câmara por causa das denúncias de envolvimento no esquema de desvio de dinheiro do Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES). A bancada petista tem 80 deputados, a segunda maior da Casa. Um apoio desse é fundamental para quem não quer perder o mandato.
A estratégia da salvação, no entanto, esbarra em dois obstáculos: o deputado Aldo Rebelo (PCdoB-SP) e o PSB. Aldo e os socialistas não admitem esse acordo. Querem manter a posição de lançar um candidato próprio. De preferência, o próprio Aldo. O impasse abriu uma crise interna entre as legendas, podendo levá-las a implodir o bloquinho no maior colégio eleitoral do país.
Paulinho nega publicamente, mas já desistiu de ser candidato a
prefeito por causa do escândalo em que está envolvido. Nos últimos dois dias, o pedetista disse aos aliados que pretende convencer Aldo a ser o vice de Marta. Essa seria a melhor saída para o deputado do PDT. Solução que evitaria um rompimento imediato com o bloquinho. Mas se Aldo não topar, Paulinho já conta com o aval do ministro do Trabalho, Carlos Lupi, presidente licenciado do PDT, para embarcar de vez na campanha de Marta.
O deputado e o ministro conversam diariamente sobre o assunto. Avaliam que não há caminho a tomar que não seja o apoio a Marta. Em entrevista publicada ontem pelo Correio, Paulinho ensaiou seu discurso, alegando que o bloquinho tem mais chances de vitória ao se coligar com Marta do que lançar candidato próprio. “A eleição em São Paulo vai ser polarizada (com a oposição)”, acredita.
Marta quer mais do que nunca essa aliança. Principalmente porque teria mais tempo na televisão e também a Força Sindical ao seu lado. Somando-a à Central Única dos Trabalhadores (CUT), ela ficaria com o apoio das duas maiores centrais sindicais do país.
Compromisso
Até agora, a prefeita está sozinha nessa disputa em São Paulo. Preocupada em agregar, chegou a convidar a deputada Luiza Erundina (PSB-SP) para ser sua vice. A parlamentar topou, mas o PSB, não. De olho em fortalecer um palanque paulista para o seu presidenciável Ciro Gomes em 2010, o partido quer fazer valer o acordo para que haja um candidato próprio nas eleições municipais de São Paulo. “O Paulinho tem a palavra amarrada e o compromisso conosco. Não existe hipótese de não haver candidatura própria. Nós não contamos com essa hipótese. Foi uma decisão tomada em conjunto para lançar a candidatura”, avisa o presidente do diretório paulista do PSB, deputado Márcio França (SP).
O PCdoB não anda nada feliz com as pretensões de Paulinho. Aldo Rebelo tem sido pressionado a desistir de sua candidatura nos últimos dias. O presidente do PT, Ricardo Berzoini, e o secretário-geral do partido, José Eduardo Cardozo, tentam convencê-lo de que o melhor caminho é apoiar Marta.
Só que Aldo não esconde que prefere a distância dos petistas. Não perdoa o boicote do partido a ele quando foi ministro da Coordenação Política, nem a postura do PT de lançar Arlindo Chinaglia (SP) para a Presidência da Câmara, contra a sua reeleição. Aldo e PT estão longe de serem grandes amigos no Congresso. E o PCdoB se diz cansado de ser um apêndice das campanhas petistas.
“Fantasiosa”
O prefeito de São Paulo, Gilberto Kassab (DEM), reagiu com indignação à entrevista dada por Paulinho ao Correio. Considerou “totalmente fantasiosa” e “desprovida de fundamento” a fala do deputado. O pedetista afirmou que a pressão que sofre por causa das denúncias de recebimento de propina de desvios no BNDES tem origem na disputa política em São Paulo. O parlamentar acusou a Polícia Civil paulista de investigá-lo clandestinamente.
O deputado acredita que Kassab e o governador de São Paulo, José Serra (PSDB), estejam por trás da crise em torno dele neste momento. O tucano também respondeu. “O Paulinho está misturando banana, laranja, com tomate e abacate. E faz tudo isso para distrair a atenção da opinião pública”, afirmou Serra. “Ele deveria enfrentar seus problemas de verdade”, ressaltou.
Para os aliados do prefeito e do governador, Paulinho tentou mudar o foco depois que começou a negociar com o PT para indicar o vice de Marta.
Não existe hipótese de não haver candidatura própria (do bloquinho). Nós não contamos com essa hipótese
Deputado Márcio França (SP), presidente do diretório paulista do PSB
análise da notícia
Ciro pode ficar sem palanque
Se o bloquinho implodir em São Paulo, o maior derrotado será o deputado e presidenciável Ciro Gomes (PSB). Disposto em concorrer ao Palácio do Planalto em 2010, Ciro é o principal interessado em fortalecer um palanque na maior cidade do país.
Argumenta que não é fácil ganhar uma eleição presidencial sem um bom desempenho nas urnas paulistas. Repete todos os dias que é preciso dividir com PT e PSDB a discussão política no estado e buscar uma terceira via.
No primeiro turno das eleições presidenciais de 2002, Ciro amargou um quarto lugar na capital paulista. Ficou com 12% dos votos, atrás de Anthony Garotinho, José Serra e Luiz Inácio Lula da Silva. Ciente de que precisa mudar esse cenário, o deputado tem trabalhado para se distanciar do PT paulistano e criar um espaço próprio. Foi um dos articuladores do acordo que selou a disposição do bloquinho em lançar um candidato próprio para a eleição municipal em São Paulo.
Quis o destino que Paulo Pereira da Silva mudasse de opinião. E de rumo. Paulinho foi o candidato a vice na chapa de Ciro na disputa eleitoral de 2002. Depois, rompeu com ele para se aproximar dos tucanos. Nos últimos meses, os dois retomaram as conversas. Um diálogo que pode ficar surdo novamente, dependendo do andar da carruagem das negociações em São Paulo.
