| Edna Simão e Ricardo Miranda |
| Correio Braziliense |
Empresários consideram desoneração de impostos e ampliação de investimentos positivas. Ministro do Planejamento diz que valorização do real não impedirá o crescimento das exportações brasileiras
A tão aguardada política industrial, anunciada ontem pelo governo federal, deve ter efeito limitado pois não foca pontos prioritários para o aumento das exportações como, por exemplo, os problemas de infra-estrutura. Empresários e economistas ouvidos pelo Correio enfatizaram que a redução da carga tributária seria muito mais eficiente no sentido de ampliar a competitividade dos produtos brasileiros lá fora. O vice-presidente da Associação de Comércio Exterior do Brasil (AEB), José Augusto de Castro, frisou que a desoneração de impostos e a ampliação de investimento são bem-vindas porém insuficientes para ampliar a venda dos produtos manufaturados para outras economias. “O efeito será praticamente nulo neste ano. Em 2009, pode ter um impacto, mas nada significante”, ressaltou.
Para Castro, a meta da exportação brasileira representar 1,25% do mercado mundial até 2010 é bastante ousada porque depende de continuidade da valorização dos preços das commodities (produtos com cotação internacional). “As exportações teriam que crescer 9,1% e dependeria de alta de, pelo menos, 30% nas commodities. Isso seria insustentável pois levaria a inflação às alturas em vários países”, destacou.
O economista-chefe da MB Associados, Sérgio Vale, não pensa muito diferente. Na avaliação dele, a política industrial é bastante ambiciosa mas não terá repercussão relevante para a elevação das exportações porque a infra-estrutura no país é deficiente. “Como vai aumentar as exportações sem ter como escoar. É preciso investir na melhoria dos transportes. Esperava mais nesse aspecto”, afirmou. O presidente da empresa de software Virtus, André Fonseca, comemorou as medidas que tornam o setor mais competitivo em relação aos concorrentes do exterior. Mas ainda é preciso reduzir a carga tributária e diminuir o custo de contratação de trabalhadores.
O presidente da Federação das Indústrias no Estado de São Paulo (Fiesp), Paulo Skaf, também não se empolgou com as medidas e voltou a criticar ontem a política de juros altos, usada para conter a demanda e evitar um estouro da inflação, e a falta, segundo ele, de uma política fiscal séria. “Demanda é saudável para o país. Mas a política econômica aumenta os juros para inibir a demanda. E, inibindo a demanda, inibe investimentos. E, inibindo investimentos, inibe oferta e o crescimento. Então, isso vai na contramão. É preciso haver um afinamento do governo”, criticou Skaf, mesmo reconhecendo as “boas intenções” da nova política desenvolvimentista. “Não é com câmbio sobrevalorizado em parte nenhuma do mundo que se aumentam as exportações”, completou. Quando soube das críticas, o ministro da Fazenda, Guido Mantega, chegou a duvidar. “Criticaram a política fiscal? Mas estamos fazendo direitinho o dever de casa”, protestou.
Desequilíbrio
O ministro do Planejamento, Paulo Bernardo, afirmou que a valorização do real não vai impedir o crescimento das exportações brasileiras, essencial para que o país atinja 1,25% do comércio mundial em 2010. O deputado Armando Monteiro Neto (PTB-PE), presidente da CNI, elogiou efusivamente o plano industrial do governo, mas demonstrou preocupação com o real forte. “No Brasil, a manutenção do processo de estabilização fica todo em cima da política monetária porque não tem havido o mesmo peso na política fiscal. Todo o potencial de crescimento é afetado por esse desequilíbrio”, afirmou Monteiro.
Já o empresário Jorge Gerdau, representante do Conselho Nacional do Desenvolvimento Industrial, classificou as desonerações anunciadas como um “sonho”. “Estamos impactados pelo tamanho do projeto, não esperávamos tudo isso. Realmente nosso sonho é ter isonomia competitiva com o mundo, essa é a chave para a nossa sobrevivência”, afirmou. A Associação Brasileira da Infra-Estrutura e Indústria de Base (Abdib) informou, por meio de nota, que política industrial acerta na escolha dos setores econômicos, das diretrizes básicas e dos instrumentos criados para fortalecer a capacidade produtiva brasileira. O desafio será conseguir instituir um modelo de gestão e controle centralizado e ágil para acompanhar a implementação e o cumprimento das metas listadas.
