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Estados se endividam em volume recorde

LEANDRA PERES Folha de S. Paulo Aumento de arrecadação abre oportunidade para endividamento maior, recorde desde divulgação obrigatória de dados Por ordem de Lula, Tesouro tem procurado flexibilizar e viabilizar autorização de investimentos dos Estados; crédito já chega a R$ 9,5 bi Após dez anos praticamente impedidos de aumentar suas dívidas, os governos estaduais retomaram o endividamento. Até a semana passada, obtiveram autorização do Tesouro para tomar R$ 9,5 bilhões em dívidas. O valor é de 281% superior a tudo o que foi emprestado no ano passado . Depois de passarem dez anos praticamente impedidos de aumentar suas dívidas e faltando menos de dois anos para novas eleições, os governos estaduais retomaram suas trajetórias de endividamento. Até a semana passada, tinham obtido autorização do Tesouro para tomar R$ 9,5 bilhões em novas dívidas. O valor é 281% superior a tudo o que foi emprestado no ano passado. É também um volume inédito nas finanças estaduais desde 2002, quando a LRF (Lei de Responsabilidade Fiscal) obrigou o governo a divulgar os dados. Até então, o máximo que os governadores haviam conseguido tomar emprestado foram R$ 5,4 bilhões, em 2006. Levantamento feito pela Folha com base em dados do governo federal mostra que o processo de endividamento dos Estados deverá fechar o ano em ritmo ainda mais acelerado. Isso porque a soma dos pedidos que aguardam a palavra final do Tesouro Nacional, responsável legal pela análise, é de R$ 5,9 bilhões. A julgar pelo andamento das aprovações de anos anteriores, não deverá haver muitas negativas. Essa mudança reflete uma nova etapa no relacionamento entre governo federal e Estados. Por ordem do presidente Luiz Inácio Lula da Silva, o Tesouro Nacional tem procurado maneiras de flexibilizar e viabilizar a realização de investimentos pelos governadores. "Nos empenhamos e permitimos que os Estados tomem esses empréstimos quando eles têm desempenho fiscal satisfatório, quando estão em dia, pagando, saneando as finanças públicas", disse o ministro Guido Mantega (Fazenda) na semana passada, durante programa oficial de rádio. Ele comentava o empréstimo tomado pelo Rio Grande do Sul. O secretário do Tesouro, Arno Augustin, foi procurado durante a semana para explicar o aumento no endividamento dos Estados, mas não atendeu aos pedidos de entrevista. Uma das medidas do "desempenho fiscal satisfatório" citado por Mantega é o crescimento das receitas estaduais. Entre 2003 e 2007, a arrecadação do ICMS, principal tributo estadual, aumentou em R$ 68,4 bilhões. A receita total subiu em 0,25% do PIB. Com base nisso, no ano passado, o Tesouro aceitou reestimar a arrecadação de diversos Estados. Foi essa a fórmula encontrada para cumprir a determinação do presidente Lula e aumentar a capacidade de investimento dos governadores. Com expectativas de arrecadação mais elevadas, a relação entre a dívida e as receitas estaduais caiu. Esse indicador é o principal a ser considerado na avaliação da capacidade de endividamento dos Estados. Como houve melhora, abriu-se espaço para aumentar a capacidade de novos endividamentos. "Talvez esteja havendo um raciocínio benevolente. Projeções podem ser mais ou menos rigorosas e hoje só quem sabe como essas contas são feitas são os secretários de Fazenda e os técnicos da burocracia do governo federal", diz o especialista em finanças públicas Amir Kahir. "Essa discussão teria de ser aberta para que fosse possível avaliar a sustentabilidade desse endividamento." Infra-estrutura De acordo com os dados do Tesouro Nacional, R$ 5,6 bilhões do total de empréstimos já autorizados são feitos por meio de operações externas, contratadas com o Banco Mundial e com o BID (Banco Interamericano de Desenvolvimento) para investimento em obras de infra-estrutura. Outros R$ 3,8 bilhões saíram da CEF (Caixa Econômica Federal) e do BNDES. Nesses casos, o dinheiro financia principalmente habitação e saneamento, incluídos aí R$ 1,588 bilhão em obras do PAC, o programa de obras do governo. O Estado com o maior volume de pedidos de crédito em andamento é São Paulo. Do limite de R$ 6,7 bilhões que o governador José Serra conseguiu obter nas negociações com o Tesouro no ano passado, R$ 4,441 bilhões já estão sob análise dos técnicos federais. Até mesmo o Rio Grande do Sul, que nunca cumpriu as metas da LRF, conseguiu tomar emprestado R$ 1,1 bilhão em recursos internacionais em 2008. O Estado é o segundo no ranking dos pedidos de crédito no primeiro semestre. O secretário de Fazenda do Estado, Aod Cunha, explica que a operação visa trocar uma dívida mais cara por outra mais barata, não se tratando, portanto, de piora no endividamento.

LEANDRA PERES
Folha de S. Paulo

Aumento de arrecadação abre oportunidade para endividamento maior, recorde desde divulgação obrigatória de dados

Por ordem de Lula, Tesouro tem procurado flexibilizar e viabilizar autorização de investimentos dos Estados; crédito já chega a R$ 9,5 bi

Após dez anos praticamente impedidos de aumentar suas dívidas, os governos estaduais retomaram o endividamento. Até a semana passada, obtiveram autorização do Tesouro para tomar R$ 9,5 bilhões em dívidas. O valor é de 281% superior a tudo o que foi emprestado no ano passado .

Depois de passarem dez anos praticamente impedidos de aumentar suas dívidas e faltando menos de dois anos para novas eleições, os governos estaduais retomaram suas trajetórias de endividamento. Até a semana passada, tinham obtido autorização do Tesouro para tomar R$ 9,5 bilhões em novas dívidas. O valor é 281% superior a tudo o que foi emprestado no ano passado.
É também um volume inédito nas finanças estaduais desde 2002, quando a LRF (Lei de Responsabilidade Fiscal) obrigou o governo a divulgar os dados. Até então, o máximo que os governadores haviam conseguido tomar emprestado foram R$ 5,4 bilhões, em 2006.
Levantamento feito pela Folha com base em dados do governo federal mostra que o processo de endividamento dos Estados deverá fechar o ano em ritmo ainda mais acelerado. Isso porque a soma dos pedidos que aguardam a palavra final do Tesouro Nacional, responsável legal pela análise, é de R$ 5,9 bilhões. A julgar pelo andamento das aprovações de anos anteriores, não deverá haver muitas negativas.
Essa mudança reflete uma nova etapa no relacionamento entre governo federal e Estados. Por ordem do presidente Luiz Inácio Lula da Silva, o Tesouro Nacional tem procurado maneiras de flexibilizar e viabilizar a realização de investimentos pelos governadores.
"Nos empenhamos e permitimos que os Estados tomem esses empréstimos quando eles têm desempenho fiscal satisfatório, quando estão em dia, pagando, saneando as finanças públicas", disse o ministro Guido Mantega (Fazenda) na semana passada, durante programa oficial de rádio. Ele comentava o empréstimo tomado pelo Rio Grande do Sul.
O secretário do Tesouro, Arno Augustin, foi procurado durante a semana para explicar o aumento no endividamento dos Estados, mas não atendeu aos pedidos de entrevista.
Uma das medidas do "desempenho fiscal satisfatório" citado por Mantega é o crescimento das receitas estaduais. Entre 2003 e 2007, a arrecadação do ICMS, principal tributo estadual, aumentou em R$ 68,4 bilhões. A receita total subiu em 0,25% do PIB. Com base nisso, no ano passado, o Tesouro aceitou reestimar a arrecadação de diversos Estados.
Foi essa a fórmula encontrada para cumprir a determinação do presidente Lula e aumentar a capacidade de investimento dos governadores.
Com expectativas de arrecadação mais elevadas, a relação entre a dívida e as receitas estaduais caiu. Esse indicador é o principal a ser considerado na avaliação da capacidade de endividamento dos Estados. Como houve melhora, abriu-se espaço para aumentar a capacidade de novos endividamentos.
"Talvez esteja havendo um raciocínio benevolente. Projeções podem ser mais ou menos rigorosas e hoje só quem sabe como essas contas são feitas são os secretários de Fazenda e os técnicos da burocracia do governo federal", diz o especialista em finanças públicas Amir Kahir. "Essa discussão teria de ser aberta para que fosse possível avaliar a sustentabilidade desse endividamento."

Infra-estrutura
De acordo com os dados do Tesouro Nacional, R$ 5,6 bilhões do total de empréstimos já autorizados são feitos por meio de operações externas, contratadas com o Banco Mundial e com o BID (Banco Interamericano de Desenvolvimento) para investimento em obras de infra-estrutura.
Outros R$ 3,8 bilhões saíram da CEF (Caixa Econômica Federal) e do BNDES. Nesses casos, o dinheiro financia principalmente habitação e saneamento, incluídos aí R$ 1,588 bilhão em obras do PAC, o programa de obras do governo.
O Estado com o maior volume de pedidos de crédito em andamento é São Paulo. Do limite de R$ 6,7 bilhões que o governador José Serra conseguiu obter nas negociações com o Tesouro no ano passado, R$ 4,441 bilhões já estão sob análise dos técnicos federais.
Até mesmo o Rio Grande do Sul, que nunca cumpriu as metas da LRF, conseguiu tomar emprestado R$ 1,1 bilhão em recursos internacionais em 2008. O Estado é o segundo no ranking dos pedidos de crédito no primeiro semestre.
O secretário de Fazenda do Estado, Aod Cunha, explica que a operação visa trocar uma dívida mais cara por outra mais barata, não se tratando, portanto, de piora no endividamento.